Viagens Espaciais


Nós humanos, iremos colonizar outros mundos? Este tema de ficção científica freqüentemente parece ser nosso inevitável destino. Traduzindo isso em ações, a NASA tem agora planos específicos para o retorno do homem à lua, além de projetos mais vagos para Marte. Mas isso vai mesmo acontecer? Muitos astrônomos estão odiando esta história toda.
Astros-celebridade como Geoffrey Marcy, de Berkeley e Fred Espenak, da NASA, lamentam cortes feitos em programas científicos para destinar verbas a dispendiosas missões tripuladas.
O público perdeu o interesse pela missão Apollo após a chegada do primeiro homem a Lua, em 1969. Um retorno à Lua pode causar tanto alvoroço na mídia quanto um campeonato de Sudoku para seniores. Será que três futuros governos entrarão nessa jogada, mesmo sabendo que os eleitores não se importarão se a verba para missão à Lua for cortada para ser destinada ao estudo de pelicanos?
Marte por outro lado ainda é um alvo atraente. Esse planeta, provavelmente, tem gelo subterrâneo, o que significa água para os astronautas. Painéis solares poderiam dissociar o gelo em hidrogênio e oxigênio combustível. Então vamos nessa.
Não tão depressa. Devagar com o andor. Há aqui também um lado sombrio. Já temos fortes indicações de que viagens espaciais tripuladas podem ser um desmancha prazeres perigosos.
“Achei extremamente aborrecido”, avaliou Wally Schirra, depois de 11 dias comandando a primeira espaçonave Apollo. Bem, ele era meio reclamão. Mas os russos que ficaram anos em simuladores a abordo da Mir? Eles sempre estavam seriamente deprimidos. É verdade, eles eram russos: você já leu um romance russo? No entanto eles cultivaram plantas e cuidaram delas meia dúzia de vezes ao dia, tocando carinhosa e obsessivamente a única coisa natural dentro do módulo.
“Eu sofri de tristeza e estresse mental”, disse Anatoly Grigoriev depois de 438 dias no espaço.
Vadim Gushin complementa: “As plantas nos ajudaram a estabelecer laços com a Terra, com a natureza. Essa é a referência em que a mente humana se baseia.”   
Sim, claro. Seres humanos evoluíram para ouvir o farfalhar das folhas, para interagir com o vento e o pólen, para se sentirem imersos na natureza.
Isole uma pessoa com ar engarrafado, luz fluorescente e plásticos. Quem sabe o dano psicológico resultante? Passar anos fora da Terra pode levar astronautas à loucura.
Mas não é só a mente. Com os resultados da Estação Espacial Internacional e de outros lugares acumulando-se os astrobiólogos estão ficando mais e mais preocupados com as conseqüências de longo prazo das viagens espaciais.
Em órbita, ossos e músculos reduzem 1% ao mês e parte dessa perda é irreversível. Corações diminuem de tamanho e, assim, a capacidade cardíaca desce morro abaixo. Pode parecer que astronautas estejam felizes numa academia lá em cima, malhando em esteiras apenas com as roupas de baixo, mas não há salvação: o espaço simplesmente não é bom para você.
As coisas ficam realmente ruins quando você deixa a órbita da Terra e cruza a magnetosfera, a barreira terrestre contra a radiação solar e cósmica. Os astronautas da Apollo viram flashes cruzando seus campos de visão como meteoros, mais ou menos uma vez por minuto, enquanto íons pesados atravessavam seus cérebros. A exposição deles à radiação não foi brincadeira e, anos depois, Alan Shepard não negou que sua ida à Lua pode ter causado a leucemia que finalmente o matou.
As coisas poderiam ter sido piores. Uma ejeção de massa coronal solar bombardeou a Lua com partículas eletricamente carregadas apenas um mês antes da missão final da Apollo 17. Se os astronautas estivessem na superfície lunar – chegando ou saindo de sua cápsula – teriam morrido.
OK, então construiremos um recinto blindado de segurança na nave rumo a Marte. O problema é que o Planeta Vermelho não tem magnetosfera. Além dos raios gama e X de supernovas distantes a superfície lá é bombardeada também com aquelas inconvenientes partículas carregadas do Sol. Com o seu contínuo fluxo de íons de fundo, aquele planeta não pode qualificar-se como um spa saudável.
Além do risco cancerígeno, neurônios são destruídos continuamente pela radiação. Biólogos estimam que durante uma missão de dois anos a Marte um astronauta possa perder de 13% a 40% do seu cérebro! Isso excede a necrose anual de 5% dos neurônios sofrida por alguns pacientes com Mal de Alzheimer.
Uma vez no Planeta Vermelho os astronautas terão que se virar: depois da chegada não haverá transporte para casa por pelo menos 18 meses, quando Terra e Marte se alinham novamente. Você estará num lugar sem ar para respirar. Lá estará fazendo sempre um frio de congelar. A radiação estará dando uma dor de cabeça de rachar. A pizza deve ser péssima.
Você ainda quer ir pra lá?
Talvez mais ninguém queira.
Astronautas heróicos estão sempre se dispondo a arriscar suas vidas pela ciência. Mas, com exceção daquelas pessoas com dívidas altas no cartão de crédito, gente comum não vai querer viajar para outros planetas se os riscos forem muito grandes.
O tempo dirá. Mas caso se confirme que a Terra é o nosso único lar, certamente devemos tomar mais cuidado com ela.
Texto tirado da Revista Astronomy Brasil - Escrito por Bob Berman

0 comentários:

Postar um comentário