"Se a antimatéria não existisse alguém teria de criá-la, pois ela é extremamente fascinante. Prevista pelo brilhante físico Paul Dirac em 1928 - e descoberta por Carl D. Anderson, da Caltech, em 1935 -, a antimatéria se parece com a matéria ordinária e atua exatamente como ela.
Mas deixe que ela toque em qualquer coisa: matéria e antimatéria desaparecem numa explosão que libera a máxima energia possível. É fácil entender, pois a antimatéria é como a matéria comum, exceto que todas as cargas elétricas são invertidas. É como se um demiurgo incompetente de uma outra dimensão acidentalmente tivesse trocado os cabos. No centro dos antiátomos se escondem antiprótons com carga negativa, em vez de positiva. Elétrons positivos - pósitrons - orbitam os antiprótons. Quando o Universo surgiu a 13,7 bilhões de anos, quantidades iguais de matéria e antimatéria devem ter sido criadas. Colisões aconteceram o tempo todo naquele ambiente congestionado e turbulento. Quando a poeira assentou, o resultado deveria ter sido um empate cósmico. No entanto, não foi isso que aconteceu. Por alguma razão tudo terminou com um Universo em que a matéria acabou predominante. Os teóricos ainda se perguntam o que teria acontecido. Evidência recente sugere que a Natureza tem uma leve preferência pela criação da matéria em vez da antimatéria - e que os dois processos não são tão simétricos como se pensava.
Mesmo assim o Universo poderia ter estrelas feitas só de antimatéria. A luz emitida por tais anti-sóis seria idêntica à energia de estrelas comuns. Observando o céu noturno não teríamos meios de saber se uma estrela é feita de matéria ou antimatéria. Poderia também haver planetas de antimatéria. Talvez haja uma anti-Terra com anti-restaurantes servindo “antipasto”. Pode até ser que exista um anti-eu e um anti-você. Diferentemente de você, o anti-você deve dobrar cuidadosamente as suas roupas à noite em vez de jogá-las no chão. A coisa mais dramática a respeito da antimatéria é o que acontece quando ela encontra a matéria comum. Lembra-se que E = mc²? Escreva o peso (em gramas) de certa porção de matéria e multiplique-o pelo quadrado da velocidade da luz expressa em cm/s: 30 bilhões ao quadrado = 900 quintilhões. Feitas as contas, eis a energia (em ergs) naquela porção de matéria. Cada toco de cigarro é uma superconcentração de energia latente armazenada naquela repugnante forma de matéria. Libere essa energia e você terá com que abastecer sua casa por mil anos. As bombas H e o núcleo do Sol liberam energia com uma eficiência de apenas 0,7%. Mas quando matéria e antimatéria colidem, suas massas se convertem em energia com 100% de eficiência. E você pode usar qualquer coisa, até lixo.
Mas, como obter antimatéria? Ninguém a está vendendo, nem mesmo no eBay. Ela é produzida em aceleradores de partículas como o do Fermilab, mas não é nada barata.
A atual produção global anual é de cerca de 10 bilionésimos de grama. As maiores porções consistem em antiátomos criados pela primeira vez em 1995.
Também é difícil armazená-la. A antimatéria aniquilaria a parede de qualquer recipiente em que você a guardasse. Se ela fosse resfriada perto do zero absoluto permaneceria praticamente imóvel. Então se você produzisse somente pósitrons ou antiprótons, a antimatéria poderia levitar num campo magnético. Um campo magnético viajante como aquele que faz o trem bala levitar, poderia guiar esse combustível para a câmara de combustão de um foguete onde a antimatéria encontraria a matéria comum.
O confinamento magnético seria o caminho a ser seguido. Mas é preciso certificar-se de que o campo jamais iria vacilar por uma falha no fornecimento de energia ou algum problema técnico. (“Estamos perdendo confinamento!”, gritou Scotty. A tripulação sabia que esse não era um pequeno problema na lista de contratempos da Enterprise. “Confinamento perdido” significava que a nave e a tripulação se transformariam em pura energia.). Sabemos que a antimatéria existe, pois a aniquilação da matéria com a antimatéria produz fótons com a característica energia de 511 mil elétron-volts. Escombros positrônicos são ejetados violentamente do núcleo da Galáxia, perpendicularmente ao plano da Via Láctea. Embora essas fontes infernais de energia tenham sido descobertas há oito anos pelo Observatório Espacial Compton de Raios Gama, as causas ainda continuam um mistério. Explosões de estrelas massivas? Buracos negros que fabricam antimatéria? Ninguém conhece a origem da antimatéria na Via Láctea.
Algum dia a antimatéria poderá nos propelir para o centro da Galáxia para podermos ver o que acontece por lá. Que a viagem não culmine num anticlímax."
Texto tirado da Revista Astronomy Brasil - Escrito por Bob Berman

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